Bullets Over Broadway

O dramaturgo David Shayne tenta lidar com as excentricidades de cada um dos seus actores para conseguir completar a sua obra, chegando ao ponto de dar um papel à amante de um mafioso para assegurar a produção da peça. A maior supresa chega quando o guarda-costas dessa mulher começa a revelar o dramaturgo que há em si. Uma fantástica comédia de Woody Allen sobre os sacrifícios feitos em nome da arte. Uma mistura perfeita e surpreendente da Máfia com o Teatro. Allen não se limita a criar meras caricaturas. Graças a mais um dos seus brilhantes argumentos, cada personagem tem os seus desejos, caprichos, maneirismos e peculiaridades. A outra grande força que permite isto é sem dúvida o elenco, um dos melhores que eu já vi num filme deste realizador. Quando se associa a uma história hilariante John Cusack, Dianne Wiest, Jennifer Tilly, Chazz Palminteri, Mary-Louise Parker, Jack Warden, Joe Viterelli, Rob Reiner, Tracey Ullman e Jim Broadbent, o resultado dificilmente ficará abaixo das expectativas. Para mim, o maior destaque vai mesmo para Dianne Wiest, no papel da manipuladora Helen Sinclair, a lenda em decadência que vê o seu estatuto de estrela da Broadway ganhar uma nova vida. Não é, para mim, o melhor filme de Woody Allen, mas não deixa de ser uma comédia memorável.

Der Himmel über Berlin - Wings of Desire

Damiel é um anjo farto de ser uma mera testemunha das vidas humanas. Quando se apaixona por uma mortal começa a desejar tornar-se humano. Um filme sobre o poético contraste entre o efémero e o eterno. O facto de ser a preto e branco serve para enfatizar ainda mais a visão fria, desprovida mesmo de qualquer emoção ou sensação, com que os anjos se habituaram a olhar os humanos na cidade de Berlim. Realizado por Wim Wenders, com as participações inesqueciveis de Bruno Ganz (actor suiço que se evidenciou mais ainda com o filme Der Untergang de 2004, no qual tem um papel assombroso como Adolf Hitler) e o recentemente falecido Peter Falk. No fim, Wenders dedica este filme a todos os anjos, mas em especial a Yasujiro, François e Andrej, cineastas que sempre representaram uma inspiração na sua já longa carreira.

Scenes from a Marriage

Uma sábia e talvez assustadora dissecação de um casamento, aparentemente bem sucedido, que dura há já uma década. Marianne e Johan sentem-se felizes e afortunados pela vida que levam, mas após muitos anos, a visão que ambos têm deste matrimónio começará a desmoronar-se. Ingmar Bergman cria um dos retratos mais honestos, que eu já vi no cinema, sobre a vida de um casal. O argumento, também da sua autoria, é perfeito e Liv Ullman e Erland Josephson têm interpretações extraordinárias. O amor, ódio, vergonha, desespero e raiva que sentem, espelhados nas suas caras, são captados na perfeição pelo lendário realizador sueco e com o enorme contributo da cinematografia de Sven Nykvist . Uma das cenas mais inesquecíveis é a conversa de Marianne com uma mulher mais velha que tenciona pedir o divórcio para pôr fim a um casamento vazio. A sua expressão facial quando vislumbra, naquela mulher, o seu futuro é comovente. Um filme, de enorme perspicácia, sobre comunicação (ou falta dela) entre duas pessoas que se amam, mesmo que não o saibam.

Ordinary People - Trailer


Este drama conta a história de uma família abastada que tenta viver marcada pela morte do filho mais velho, que irá condicionar por completo as relações entre a mãe amargurada, que usa as trivialidades do dia-a-dia para fugir à sua dor, o pai bem-intencionado que se revela incapaz para resolver a situação e o irmão mais novo que tem de viver com a culpa de ter sobrevivido. Robert Redford estreou-se aqui como realizador e fez talvez o melhor trabalho da sua carreira. Uma crítica à forma como muitos nas mais altas classes sociais americanas encaram a realidade, mas acima de tudo um filme sobre perda e a forma como essa perda altera irremediávelmente a dinâmica de uma família. Vencedor de 4 Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador.

True Grit - Punishment comes one way or another

Uma jovem de 14 anos procura vingar a morte do seu pai ao contratar um U.S. Marshal para encontrar o assassino. A adaptação da obra de Charles Portis pelos irmãos Coen parece ser, de acordo com a crítica, mais fiel que a versão de 1969, com John Wayne como protagonista. Não é, sem dúvida, o filme que mais adorei desta dupla carismática de irmãos que parecem pensar numa sintonia perfeita em cada uma das suas criações. Desta vez, por respeito à obra, os irmãos foram forçados a colocar um freio nas suas mentes habituadas a produzir o diálogo ou a cena mais original e imprevisível (quem vir o filme The Big Lebowski jamais o esquecerá). No entanto, não deixo de considerar este um dos filmes do ano e mais uma prova da prolificidade destes realizadores. A cinematografia da autoria de Roger Deakins é talvez a maior qualidade deste filme. As paisagens áridas, dignas de um verdadeiro western, são deslumbrantes e o contraste entre o dia e a noite é executado na perfeição e com uma naturalidade que nem parece ser criada com qualquer tecnologia, mas apenas com o olho humano. Finalmente, seria injusto não mencionar a estreia surpreendente de Hailee Steinfeld, no papel de uma rapariga com uma preserverança e coragem impressionantes, e mais uma inesquecivel interpretação de Jeff Bridges, que já é, para muitos, um dos actores mais versáteis de sempre.

There is no force more powerful than the will to live

127 Horas é uma experiência emocionante, chocante e inesquecível sobre um jovem que fica preso no deserto. Mesmo quem já conhece a história ficará fascinado com a forma como Danny Boyle a contou. Desde o primeiro ao último segundo, o filme parece ter vida própria, com uma pulsação que varia com cada cena. As reminiscências de Aron interrompem esta intensidade e suscitam um particular interesse ao servirem de escape à profunda solidão que a história nos transmite. Uma das coisas mais impressionantes é a variedade de ângulos explorados num espaço de acção tão limitado. Aí o mérito vai não só para o realizador britânico como para a cinematografia de Anthony Dod Mantle e Enrique Chediak. Outro dos grandes destaques é James Franco, que tem neste filme uma interpretação que, muito provavelmente, jamais conseguirá ultrapassar a nível de entrega, realismo, expressividade e intensidade. Forma-se assim uma fantástica adaptação que prova o enorme talento de Danny Boyle em contar histórias com as quais nos identificamos.

Hotaru no haka - Grave of the Fireflies


Um adolescente e a sua irmã mais nova tentam sobreviver no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. Para quem tiver a sorte de ver este filme, realizado por Isao Takahata, esta premissa rapidamente se transformará numa das mais belas histórias da animação japonesa, beleza essa que é ao mesmo tempo natural e poética. Faltará talvez, para os fãs de animação, a magia ao estilo a que Hayao Miyazaki nos habituou. No entanto, há algo de profundo, assombroso e devastador na simplicidade deste conto, incapaz de nos deixar indiferentes.