There is no force more powerful than the will to live

127 Horas é uma experiência emocionante, chocante e inesquecível sobre um jovem que fica preso no deserto. Mesmo quem já conhece a história ficará fascinado com a forma como Danny Boyle a contou. Desde o primeiro ao último segundo, o filme parece ter vida própria, com uma pulsação que varia com cada cena. As reminiscências de Aron interrompem esta intensidade e suscitam um particular interesse ao servirem de escape à profunda solidão que a história nos transmite. Uma das coisas mais impressionantes é a variedade de ângulos explorados num espaço de acção tão limitado. Aí o mérito vai não só para o realizador britânico como para a cinematografia de Anthony Dod Mantle e Enrique Chediak. Outro dos grandes destaques é James Franco, que tem neste filme uma interpretação que, muito provavelmente, jamais conseguirá ultrapassar a nível de entrega, realismo, expressividade e intensidade. Forma-se assim uma fantástica adaptação que prova o enorme talento de Danny Boyle em contar histórias com as quais nos identificamos.

Hotaru no haka - Grave of the Fireflies


Um adolescente e a sua irmã mais nova tentam sobreviver no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. Para quem tiver a sorte de ver este filme, realizado por Isao Takahata, esta premissa rapidamente se transformará numa das mais belas histórias da animação japonesa, beleza essa que é ao mesmo tempo natural e poética. Faltará talvez, para os fãs de animação, a magia ao estilo a que Hayao Miyazaki nos habituou. No entanto, há algo de profundo, assombroso e devastador na simplicidade deste conto, incapaz de nos deixar indiferentes.

25th Hour - Can you change your whole life in a day?

A história de um traficante de droga no seu último dia de liberdade, antes de cumprir 7 anos de prisão. Uma jornada emotiva passada na cidade de Nova Iorque, pouco tempo depois dos ataques do 11 de Setembro. Uma profunda e perturbadora reflexão sobre as consequências das nossas escolhas. Montgomery Brogan (Edward Norton, um dos meus actores favoritos) encontra-se encurralado, a aguardar em angústia pela hora em que irá preso, sem ter outra opção senão reprimir a culpa que sente e tentar esquecer aquilo que não consegue tirar da cabeça. O mais interessante para mim foi observar a personagem principal sem juízos de valor mas simplesmente como um ser humano que, como tanta vez nos acontece, sofre com o resultado dos seus actos. Um dos pontos mais fortes do filme é a riqueza das personagens, nomeadamente os dois melhores amigos de infância de Monty, Jacob e Frank. Repleto de cenas memoráveis, com uma realização perfeita de Spike Lee. Recomendo a todos, mas especialmente aos fãs de American History X.

The Fisher King

Um conto recheado de fantasia, passado nas ruas de Nova Iorque. Jack, um arrogante locutor de rádio, após cometer um terrível erro, tenta redimir-se anos depois ao ajudar Parry, uma das vítimas dessa fatalidade. A realização de Terry Gilliam é excepcional. Fiel ao seu estilo surreal, consegue aqui criar uma perfeita combinação de imaginação e realidade, humor e tragédia. É ainda abordada a vida dos renegados da sociedade, sem-abrigos a viveram sem destino, assombrados pelo passado e a tentarem sobreviver num mundo que procura ignorar a sua existência. Robin Williams, como um desses homens, tem neste filme talvez a melhor interpretação da sua carreira. Um papel que lhe assenta na perfeição, com aquela inconfundivel capacidade humorística a vir ao de cima numa história comovente. Jeff Bridges cumpre como sempre com uma naturalidade impressionante. O argumento é perfeito, referindo-se a temas do passado de Gilliam (o Santo Graal) e dando riqueza e variedade não só às duas personagens principais mas também a secundários como Mercedes Ruehl, Amanda Plummer e o caricato Michael Jeter. Esta é talvez a obra mais mainstream de Terry Gilliam. Não deixa, no entanto, de ser um filme inesquecível. Recomendo.

The Edukators : "your days of plenty are numbered"

Um filme inspirador e de profunda reflexão sobre dois jovens berlinenses que praticam uma forma de activismo muito peculiar. Uma farpa nos príncipios do capitalismo. Escrito e realizado por Hans Weingartner. Nomeado para a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2004. Recomendo especialmente a todas as pessoas ainda na sua juventude.

Winter's Bone


Nas Montanhas Ozark em Missouri, uma rapariga procura o seu pai para garantir a sua sobrevivência e a dos seus irmãos mais novos. Uma premissa já muitas vezes vista mas que tem neste filme um desenvolvimento diferente, fruto da promissora realização de Debra Granik, que conseguiu mergulhar na cultura da região e com isso dar uma maior autenticidade à história. Um conto de preserverança e coragem, por vezes desolador mas com uma réstia de esperança, abrilhantado pela auspiciosa interpretação de Jennifer Lawrence. Uma agradável surpresa que apenas descobri quando surgiram as primeiras críticas do último festival de Sundance. Nomeado este ano para quatro Óscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Actriz.

The Sopranos

Uma história que se tornou numa das mais celebradas e aclamadas séries nos E.U.A. Mais uma das poucas provas de que a televisão no século XXI não é toda ela desprovida de conteúdo ou inteligência. Esta inovadora série retrata a vida de um líder da máfia de New Jersey. Fantásticos enredos, personagens diversas mas sempre autênticas, desenvolvimentos impressionantes mas sempre credíveis, acompanhados com escolhas musicais perfeitas e um argumento soberbo, formam uma das mais épicas sagas americanas sobre o crime organizado. James Gandolfini ficará para sempre imortalizado pelo seu papel como Tony Soprano, umas das mais carismáticas e intrigantes personagens que eu já tive o privilégio de acompanhar. É notável como a sua tendência ameaçadora e temperamental no papel de um criminoso contrasta com a sua tendência afável e protectora como pai e amigo. O seu casamento com Carmela, pela sua natureza complexa e problemática, é um dos elementos mais interessantes. Além de Gandolfini no papel principal e apesar de todo o elenco ser fantástico (são dezenas as personagens e não sou capaz de encontrar uma interpretação falhada), queria destacar Edie Falco (Carmela Soprano), Lorraine Bracco (Dr. Jennifer Melfi) e sobretudo Nancy Marchand (Livia Soprano) numa extraordinária interpretação como uma das mais detestáveis mães que o cinema ou a televisão já apresentaram. No entanto, apesar destes fantásticos desempenhos, o maior mérito terá de ir inevitavelmente para os escritores (David Chase, o criador, é um deles) que, ao longo de tantas temporadas conseguiram manter o altíssimo nível de qualidade e originalidade. Uma série simplesmente brilhante que recomendo com grande entusiasmo.