Once Upon a Time in The West

Um belíssimo e glorioso western do lendário Sergio Leone. História épica de um enigmático homem que se une a um fora da lei para proteger uma viúva de um assassíno sem escrúpulos. Mais uma brilhante composição da autoria de Ennio Morricone. Inesquecível o confronto final a fazer lembrar o mítico embate entre Blondie, Tuco e Angel Eyes em O Bom, o Mau e o Vilão. É impossível menosprezar este género de filme depois de se ver as obras-primas de Leone.

Waking Life Official Trailer


Um homem navega por um sonho encontrando variadíssimas pessoas e discutindo os significados e os desígnios do Universo. Uma experiência única. Uma fusão mágica e invulgar de Animação e Filosofia. Realização de Richard Linklater.

Biutiful: uma tragédia moderna nas ruas de Barcelona

Trágico. Profundo. Arrebatador. Real. Fui finalmente ver este filme e fiquei surpreendido. Não era o que esperava desde que tinha visto o trailer em Setembro (tenho de parar de ver trailers meses antes do filme estrear, só me faz mal...) mas o que vi foi uma obra-prima de Alejandro González Iñarritu. Biutiful conta a história de Uxbal (Bardem), um homem que tenta sobreviver e sustentar os seus filhos numa zona de Barcelona onde a pobreza e a fuga à Lei fazem parte do dia-a-dia. Ao pressentir a morte irá tentar lutar contra o seu destino, numa extraordinária busca pela redenção. Não quero estragar o filme portanto não vou entrar em grandes descrições. Afirmo apenas que é um dos melhores dramas que eu já vi na minha vida, recheado de simbologias e momentos de uma carga emocional impressionante. A cinematografia de Rodrigo Pietro é de uma beleza única, retratando Barcelona de forma realista e mostrando uma face da cidade que muito poucos conhecerão. A música, da responsabilidade de Gustavo Santaolalla, é perfeita, acompanhando a intensidade de cada cena. No entanto, o maior aplauso vai para a majestosa interpretação de Javier Bardem, com uma total entrega a um papel extremamente difícil. O herói improvável, carregado de raiva, levado ao desespero mas sem nunca desistir da garantia de uma vida melhor para os seus filhos. Só com base neste grande papel, mais os filmes No Country For Old Men e Mar Adentro, já posso facilmente considerar Bardem um dos melhores actores da actualidade. Parabéns a Iñarritu pela sua criação e realização, por transformar o que chamamos feio no séc. XXI em algo de uma beleza épica quase indiscritível.

Interiors

Uma homenagem de Woody Allen a Ingmar Bergman. Um olhar sombrio sobre as vidas de três irmãs após a separaração dos seus pais. Nem todo o estilo de Woody Allen se perde nesta fuga às suas habituais criações (o incontornável Jazz, por exemplo, manteve-se), mas o génio cómico que exibiu ao longo da sua carreira ficou sem dúvida fora deste filme. Em momentos como os close-ups ou os intensos confrontos emocionais entre as personagens quase acreditei que era o lendário realizador sueco o homem por trás da câmara. Ressentimento, ódio e desespero eclodem em cada cena com um realismo e intensidade por vezes perturbador. A qualidade do argumento, também da autoria de Woody Allen, confere uma maior credibilidade à situação dramática vivida por esta família. A ausência de som em muitos momentos parece transportar-nos para a própria cena, como se fôssemos um familiar distante, impotente para evitar o descontrolo observado. Relativamente aos actores, destaque obrigatório para Geraldine Page (uma das melhores actrizes americanas do séc. XX) no papel de uma mulher e mãe desequilibrada, que não é capaz de suportar a ideia de viver longe do seu marido de tantos anos. Um merecido tributo a Ingmar Bergman e um honroso trabalho de Woody Allen. Nem todos os fãs destes dois cineastas gostarão deste drama. Eu gostei mas não é de longe o meu filme preferido do realizador nova-iorquino.

Glengarry Glen Ross - A Story For Everyone Who Works For A Living

Um dia passado numa agência imobiliária norte-americana onde quatro trabalhadores fazem tudo o que são capazes para não perder o seu emprego. Uma análise ao capitalismo desenfreado e à busca pelo sucesso a qualquer custo. Um elendo de luxo acrescenta qualidade a um filme que já conta com um excelente argumento de David Mamet. Jack Lemmon é impressionante num dos últimos grandes papeis da sua memorável carreira, Al Pacino é o que já se espera dos seus lendários desempenhos no séc. XX e juntamente com Alan Arkin, Ed Harris, Alec Baldwin e o brilhante Kevin Spacey formam um conjunto inesquecível de interpretações. Um filme importante e que devia ser visto por todos os que têm uma promoção e um novo carro como objectivos de vida.

The Seventh Seal

Um filme sobre a procura incessante de respostas ao significado da vida. Ingmar Bergman questiona de forma brilhante a existência de Deus. Um cavaleiro e o seu misógino escudeiro regressam das Cruzadas e encontram o seu país assolado pela Peste. O cavaleiro depara-se um dia com a própria Morte, que o desafia para um jogo de xadrez do qual depende a sua vida. Além da Morte, Antonius Block cruza-se com um humilde casal de actores e o seu bebé, que desfrutam dos simples prazeres da vida. Esta família representa o lado mais humano da história e não me parece coincidência que, num filme que tem a Religião como um dos seus temas centrais, os nomes do casal me façam lembrar os nomes Maria e José. Nunca antes vi a ideia de Morte ser abordada tão directa e estoicamente. O Sétimo Selo é assim uma história severa mas não desprovida de esperança sobre o destino que todos os seres humanos partilham e do qual não podem escapar. Impressionante a beleza da cinematografia de Gunnar Fischer, recheada de simbologia, como já seria de esperar de um filme realizado por Ingmar Bergman. Um dos maiores feitos da sétima arte.

The Conversation

Uma história intrigante sobre paranóia. Um brilhante thriller psicológico de Francis Ford Coppola, com Gene Hackman no papel principal. Harry Caul é um perito em vigilância que um dia, ao gravar a conversa de um casal, suspeita que estes poderão vir a ser assassinados. Um filme centrado numa personagem fria e ameaçadora, que não deixa por vezes de revelar a sua vulnerabilidade e humanidade, mas que não consegue viver para além do seu trabalho. Basta constatar, por exemplo, que mesmo quando toca saxofone, sozinho no seu apartamento, Harry limita-se a imitar a banda que ouve, o que demonstra a forma passiva como vive. Sombrio, complexo e notável o desempenho de Gene Hackman. No entanto, o maior mérito vai sem dúvida para a realização e argumento de Coppola, com um trabalho, digno de um mestre do cinema, que se estende desde a manipulação da audiência (que em tantos momentos vê o que Harry vê, pensa o que Harry pensa e sente o que Harry sente) até à polémica barreira entre o direito à privacidade e a responsabilidade moral. Este filme teve o "azar" de ser do mesmo ano que "O Padrinho II" e também por isso é muitas vezes esquecido ou menosprezado. Aliás, com estes dois filmes no mesmo ano, Coppola perdeu o Óscar de Melhor Filme para ele próprio (deviam ter criado nesse ano uma categoria só para este grande Senhor). Um dos melhores filmes de um dos melhores cineastas de sempre.